“Las Venas Abiertas de Argentina”
A cobiçada por trás da ilha gera atritos entre argentinos, espanhóis e ingleses há mais de três séculos
Por Pedro Araújo*

O paraíso da guerra: Malvinas é alvo de disputa desde o século 18. Agora, cobiça por petróleo volta a acirrar relação entre Artentina e Inglaterra
A paráfrase do afamado livro de Eduardo Galeano traz à tona a chaga que insiste em não fechar no orgulho argentino. Trinta anos após a desastrada intervenção do governo militar do general Leopoldo Galtieri, cujos frutos foram 649 soldados mortos, 1.068 feridos e 11.313 aprisionados e o capital político necessário para garantir a reeleição da então premiê britânica, Margaret Thatcher, ainda redunda em protestos inflamados dos populares de esquerda e de direita, com direito até mesmo a um discurso inflamado da presidente Christina Kirchner a favor da reintegração das Ilhas Malvinas (Falkland, para o Reino Unido) no último mês de abril.
Para se ter uma ideia do quanto o tema ainda gera polêmica, recentemente os diplomatas argentinos recusam-se terminantemente a tomar um avião rumo a Port Stanley, capital da ilha britânica, para não sofrerem a humilhação de terem seus passaportes carimbados pelos fiscais da alfândega. Em outro sinal de frontal oposição à ocupação britânica, a inscrição Las Malvinas Son Nuestras, adornava o aeroporto de Buenos Aires desde o fim da guerra e foi retirada somente em 1999. A própria constituição do país enuncia que “A Nação Argentina ratifica sua legítima e imprescindível soberania sobre as Ilhas Malvinas, Georgia do Sul e Sandwich do Sul, além dos espaços marítimos e insulares correspondentes, por ser parte integrante do território nacional. A recuperação destes territórios e o exercício pleno da soberania, respeitando o modo de vida de seus habitantes em conformidade com os princípios do direito internacional, constituem um objetivo permanente e irrenunciável do povo argentino”.
Mas, afinal, por quê as Malvinas continuam dando o que falar? É uma longa história que será contada em três partes. Eis a primeira.

Ilha explosiva: revista “Time” destaca guerra entre Argentina e Inglaterra no começo da década de 1980
No final do século 15, as rotas marítimas eram quase que em sua totalidade controladas pelos espanhóis. Nesta época, apenas navegantes a serviço da Espanha tinham autorização para transitar pela costa sul-americana, incluindo o extremo sul do continente, por onde navios transitavam constantemente rumo ao Oceano Pacífico. Foi em uma destas expedições em que Fernão de Magalhães avistou as Malvinas pela primeira vez em 1520.
Ao longo do século seguinte, as Ilhas Malvinas já demonstravam sua vocação para o litígio, despertando a cobiça de outras nações, como Inglaterra e França, interessadas sobretudo na proximidade do Estreito de Magalhães. A Paz de Utrecht, assinada em 1713 e que punha um fim à “guerra” pela sucessão do trono espanhol, assegurou ao país ibérico a soberania definitiva sobre seus territórios sul-americanos. A Inglaterra, embora signatária deste tratado, mantinha seu velado assédio às ilhas. Em 1749, os espanhóis descobriram um projeto britânico para ocupar as Malvinas, o qual, devido a veementes protestos do governo de Madri forçaram os ingleses a abortar o plano. Também franceses, em 1767, foram obrigados a entregar Port Louis, a colônia recém-fundada na Ilha Soledad. Foi nesta época que os franceses batizaram o arquipélago de Malouines, nome do qual derivaria o nome Malvinas.
Em 1766, simultaneamente à invasão francesa, os ingleses se estabeleceram em uma das ilhas, fundando o forte Port Egmont. Indignado, o governo espanhol buscou a edificação clandestina e expulsou à força seus ocupantes. Devido a esta ação, Espanha e Inglaterra estiveram à beira de uma guerra, a qual foi evitada graças a um acordo bilateral assinado em 1771, na qual os ibéricos restituíam a posse de Port Egmont para salvaguardar a honra do rei britânico, George III, evitando ter de tolerar ver seus conterrâneos tratados como invasores. Como parte do acordo, os ingleses deveriam se retirar do forte, o que aconteceu pouco depois, em 1774. Desde então, a Espanha manteve sempre um administrador permanente nas Malvinas, que respondia ao governo central de Buenos Aires. Os ingleses, no entanto, mantinham suas investidas contra a autoridade espanhola.
Os espanhóis só baixariam a guarda sobre as Ilhas em 1811, quando a guarnição de Puerto Soledad, capital do arquipélago, foi convocada a reforçar as forças espanholas que combatiam os insurgentes na Guerra da Independência argentina. A ilha permaneceria desocupada até 1820, quando o mercenário norte-americano David Jewett ocupou as Malvinas em nome do governo de Buenos Aires. A partir desta data, pelos próximos 13 anos, constituiu-se o único período em que as Malvinas fueran de facto argentinas. Em 1833, aproveitando a desordem causada por um conflito entre do governo sul-americano com baleeiros ilegais dos Estados Unidos, novamente, os ingleses voltaram à carga. E foi à bordo da fragata HMS Clio que o capitão John James Onslow ordenou aos ocupantes argentinos que tomaria posse do arquipélago em nome do Reino Unido. Sem condições de oferecer resistência, o capitão José Maria Pinedo voltou com seus compatriotas a Buenos Aires.
Os argentinos, no entanto, jamais deixaram de reivindicar a posse sobre as Malvinas nos anos subsequentes.
*Pedro Araújo é jornalista e gentilmente pesquisou para escreveu este artigo, o primeiro de uma série de três textos para o Páginas Latinas
Foi curioso a
companhar hoje a coletiva de imprensa entre o ministro argentino do Planejamento, Julio de Vido, e o titular de Minas e Energia brasileiro, Edison Lobão. Na mesma semana em que a Argentina nacionalizou a petrolífera YPF, vendida em 1993 à espanhola Repsol, Vido veio a Brasília pedir novos investimentos da Petrobras.
A solicitação pareceu um tanto desprositada (afinal, houve uma estatização há quatro dias). Só restou ao Lobão usar termos pouco claros sobre a ausência de interesse do Brasil em arriscar recursos em um mercado no qual a Petrobras reduz participação ano após ano. Entre 2006 e 2011, a brasileira diminuiu a produção de óleo e gás em solo argentino de 140 mil para 98 mil por dia, vendeu 363 postos de combustíveis e repassou para a Bunge os ativos que detinha na área de fertilizantes (posteriormente revendidos para a mineradora Vale). “Faremos esforço para ampliar investimentos”, disse umbem pouco animado Lobão, ante à insistência do colega argentino em dizer que é preciso que a YPF e a Petrobras “trabalhem juntas”.
A única garantia que Vido conseguiu tirar do Brasil foi a promessa de manutenção do fluxo de investimento realizado no ano passado, cerca de US$ 500 milhões. Não à toa, a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, teve participação discreta na reunião ocorrida em Brasília. Ela entrou e saiu pela porta dos fundos, sem querer comentar o pedido argentino para a estatal ampliar de 8% para 15% sua participação no mercado petrolífero.
Símbolo da modernização econômica do governo Carlos Menem (1989-93), a privatização da YPF foi vista como passo estratégico para uma Argentina com câmbio forte (um peso valia um dólar), consumo aquecido e demanda crescente por combustível. Duas décadas depois, uma Argentina sucateada, sem conseguir atrair investimentos em função da bancarrota econômica de 2001 (quando congelou a dívida externa) e com um pátio industrial ultrapassado, se vê sem alternativas senão tomar para si aquilo que o Estado havia vendido.
O populismo arriscado pode levar os hermanos a entrar numa nova crise econômica. Isto porque, caso a Casa Rosada resolva intervir/estatizar outros setores com baixo investimento privado o cenário externo pode se retrair ainda mais para ela (entenda-se: a eliminação completa de lnhas de crédito). Se isso ocorrer, o país ficará refém apenas do Mercosul e, dentro do bloco, a dependente de uma corrente comercial bilateral com o Brasil, que em 2011 movimentou US$ 39 bilhões (fluxo que deve garantir a segurança dos ativos da Petrobras na Argentina).
O mesmo pode não valer para outras empresas estrangeiras num momento em que o governo Cristina Kirchner sobe no palanque por uma nova disputa pelas Ilhas Malvinas com a Inglaterra, justamente para explorar o petróleo do arquipélago.
Que o petróleo é deles, não há dúvidas. Mas se Argentina copiar o modelo venezuelano de desenvolvimento a fórceps, estatizando empresas em um contexto de economia globalizada com trânsito de capitais, corre o risco de ver a ‘nova’ estatal YPF reproduzir os baixos índices de modernização e eficiência da PDVSA. Sem flexibilidade, a disputa da Casa Rosada por petróleo pode fazer o insumo ser somente deles. Só que sob o solo. E não no tanque dos carros ou como matéria-prima de uma indústria argentina forte.
Bento 16 critica acúmulo de dinheiro aos mexicanos, depois sugere “novo modelo” para a ilha caribenha que se aproxima da igreja para melhorar imagem internacional

Raúl Castro: reaproximação com a igreja rendeu liberdade a presos políticos, enviados à Espanha
É 1968,
a Revolução Cubana caminha para a primeira década e Anthony Quinn assume o papado em Roma, na pele de um cardeal russo eleito pelo colegiado da igreja (história inventada pelo escritor Morris West, que em 1963 publicara
As sandálias do pescador). No filme, com um Quinn genial, o papa titubeia entre ser o líder do maior agrupamento humano da terra (a igreja já teve mais fiéis que a China chineses) ou manter-se como pequeno pescador de almas. Em crise, o papa foge para ver como as pessoas vivem em Roma. Ele volta ao Palácio de São Pedro, após negociar um abrandamento da tensão nuclear entre capitalistas e comunistas, anunciando para o pasmo de todos que os bens da igreja serão doados aos pobres.
É 1990, Cuba até então país ateu reconhece o culto católico, mesmo ante a inexpressiva quantidade de fiéis em seu território (cerca de 5% praticante, a maior parte dos cubanos é santerísta – cresça que mistura santos da igreja com divindades africanas). A mudança leva o papa João Paulo II a visitar a ilha em 1998, num gesto político pelo fim do comunismo cubano após a queda do Muro de Berlin.
É 2008, Fidel Castro se afasta do poder após 49 anos. Raúl Castro, irmão do líder guerrilheiro, assume e ensaia uma reaproximação com a igreja a fim de mostrar ao mundo capitalista que Cuba está mudando, abrindo-se para uma nova fase, uma economia mista e mais dinâmica. O movimento culmina com a libertação de presos políticos a pedido da igreja, incluindo o envio dos opositores para a Espanha.
É 2011 e um Bento 16 pouco político, em entrevista ao jornalista alemão Peter Seewald, diz que não vê erro em renunciar ao papado. Nos bastidores do Vaticano quando João Paulo II era questionado sobre uma possível renúncia tendo em vista a saúde debilitada, a resposta era profética: “Cristo por acaso desceu da cruz?”.
É 2012, Bento XVI visita os fiéis mexicanos e em discurso durante missa na Praça da Revolução, na Cidade do México, critica a “idolatria ao dinheiro” que leva ao país a viver um Estado paralelo financiado pelo poderoso narcotráfico.
Ainda é 2012 e a cidade de Santiago de Cuba se prepara para receber nesta segunda-feira (26/03) a visita de Bento 16. O detalhe fica por conta da fala do papa no voo entre Roma e o México, no qual teria dito que a ilha do Caribe deviria abandonar ideologia que “já não responde à realidade”. Mas a crítica do papa não necessariamente foi em defesa do capitalismo, visto que ele emendou a afirmativa de que “convém [à Cuba] falar de novos modelos”.
Bento 16 tem indicado cansaço com o cargo, por ser mais teólogo de academia que pescador descalço como o papa de Quinn. Cuba sabe que precisa de “novo modelo” com sugerido por Bento 16. E o que talvez se veja na ilha na próxima semana será um papa cansado em um país cansado de um modelo cansado.
O Brasil por trás de Cuba
Dilma frustra ao desconversar sobre direitos humanos, mantendo o Planalto como financiador da infraestrutura e da agricultura cubana
Há quase dois anos, mais exatamente em fevereiro de 2010, o ex-presidente Lula chegava a Cuba para uma visita e o ativista Orlando Zapata Tamayo morria após três meses de prisão e greve de fome. Na ocasião, Lula afirmou que não foi procurado pelos ativistas para interceder por Tamayo, enquanto o assessor internacional do presidente, Marco Aurélio Garcia, saía com uma pérola: “Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro.”
Hoje, apenas 12 dias após a morte de Wilmar Villar Mendoza, ao final de 56 dias em protesto de fome contra a ditadura cubana, a presidente Dilma Rousseff (vitima de uma ditadura) frustou a todos que esperavam dela uma postura mais forte sobre o desrespeito aos direitos humanos na ilha caribenha. O argumento de Dilma foi igual ao de Marco Aurélio Garcia em 2010, mas com uma peça de oratória mais incrementada.
“Não é possível fazer da política de direitos humanos uma arma de combate político-ideológico. O mundo precisa se convencer de que é algo que todos os países do mundo têm de se responsabilizar, inclusive o nosso”, declarou Dilma – confundindo, assim, protesto em prol da liberdade (em Cuba punido com prisão) com digressões isoladas como a violência policial no Brasil (injustificável sempre, mas não prescrita na constituição).
Alguns (como eu) esperavam que Dilma estivesse disposta a adotar um postura semelhante à assumida em relação ao belicoso Irã, com o qual rompeu o excesso de aproximação iniciado por Lula.
Esperava-se até que Dilma defendesse a vinda da blogueira Yoani Sanchez ao Brasil, o que agora é o de menos diante da negativa em criticar a ditadura cubana dias após a morte de Mendoza.
Irmão financeiro
Mas a frustração, pode-se dizer, também era esperada. Contraditório? Veja: o BNDES acaba de liberar US$ 682 milhões (R$ 1,2 bilhão) para a revitalização do Porto de Mariel, a 40 km de Havana. E onde há acordos econômicos, dificilmente ocorre discordância diplomática (Dilma está confirmando isso).
O aporte do BNDES é parte de um conjunto de medidas do Planalto para financiar a falida máquina econômica cubana, tendo por trás o argumento de incentivar a internacionalização de empresas brasileiras. Sem considerar, para isso, o respeito aos direitos humanos – vide a ligação com a ditatorial Angola, fortalecida nos últimos anos por Lula. É uma internacionalização visivelmente “ideológica”, para usar uma palavra ao gosto da presidente, uma vez que é pautada pela ideia de ter um brasileiro Estado-fomentador-econômico não mais interno e, sim, regional.
Vale lembrar que em novembro de 2011 o ministro do Desenvolvimento Agrário de Cuba, Afonso Florence, pediu ao Brasil US$ 200 milhões em crédito para a importação de máquinas agrícolas, que seriam usados para Cuba dobrar sua produção de arroz, feijão e reduzir a dependência da importação de grãos. Estima-se que a ilha importe até US$ 2 bilhões em alimentos por ano.
O BNDES usou de um artifício sutil para atender ao pleito de Havana, criando no início deste mês a linha BNDES Exim Automático. Por meio das agências do Banco do Brasil na América Latina ou diretamente pelo BNDES, inéditos US$ 200 milhões estão disponíveis para a importação de máquinas e equipamentos brasileiros, inicialmente, por Argentina, Chile e Paraguai.
A linha deve ser estendida a países nos quais órgão brasileiros de fomento, como a Apex-Brasil, estão instalados, usando como regra a aprovação de crédito a empresas por órgãos regionais como a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). Cuba é membro da Aladi desde 1999.
A agricultúra é o alvo do pacote de US$ 523 em linhas de financiamento com o qual Dilma desembarcou em Havana. A produção cubana de alimentos terá US$ 350 milhões do total por meio do Programa de Financiamento à Exportação (ProEx).
O governo brasileiro mantém outra linha de US$ 200 milhões no programa Mais Alimentos, voltado para a compra de máquinas e equipamentos, operado pela através da Câmara de Comércio Exterior (Camex). Com isso, Cuba soma US$ 1,3 bilhão em recursos brasileiros.
Construtora de açúcar
Junto com o crédito, a construtora Odebrecht (responsável pelas obras no Porto de Mariel), pretende investir na produção cubana de açúcar por meio de sua subsidiária local Companhia de Obras em Infraestrutura (COI).
O valor do aporte não é revelado pela empresa nem onde o dinheiro saíra, mas deve marcar um passo importante para a retomada da produção cubana do produto. A ilha do Caribe produz atualmente cerca de 1,2 milhão de toneladas de açúcar por ano, contra 8 milhões nos anos 1970.
O governo Raúl Castro promete ceder 1,6 milhão de hectares à iniciativa privadas investir no agronegócio cubano. Não à toa, a Odebrecht está se associando à estatal Grupo de Administração Empresarial do Açúcar (Azcuba) para administrar a usina 5 de Septiembre, na província de Cienfuegos.
As ações do BNDES e da Odebrecht, aliadas ao discurso de ‘desrespeito universal aos direitos humanos’ de Dilma, mostram um pouco do Brasil por trás de Cuba. Um Brasil que a cada ano coloca milhões para ajudar Cuba na sua meta quixotesca de virar uma China latino-americana. Por ora, a semelhança só existe no nome dos partidos comunistas chinês e cubano, os PCC.
Brasil puxa apoio do Mercosul para proposta de reconhecimento do Estado palestino,mas afinidade política de Colômbia e México com os EUA faz países da região divergirem
A América Latina não está afinada sobre ser favorável ou contra o reconhecimento da Autoridade Nacional Palestina como Estado permanente na Organização das Nações Unidas. A divergência foi exposta pela presidente Dilma Rousseff e o colega mexicano Felipe Calderón, durante discursos na 66º Assembleia Geral do órgão multilateral.
Dilma abriu a assembleia ontem, pouco antes de Calderón, ressaltando o apoio do Brasil à entrada da Palestina – o tema mais polêmico da conferência deste ano, que pode render independência à nação árabe. A presidente começou sua fala cumprimentando os representantes sudaneses pela recente entrada no órgão. “Quero estender ao Sudão do Sul as boas vindas à nossa família de nações”, disse. “Mas lamento ainda não poder saudar, desta tribuna, o ingresso pleno da Palestina na Organização das Nações Unidas”, protestou.
Ao contrário de Dilma, o presidente mexicano foi enfático ao mostrar alinhamento com o colega Barack Obama, que defende uma saída negociada por Israel e Palestina antes do Conselho de Segurança da ONU votar o Estado árabe. Calderón exigiu da ONU a “responsabilidade de contribuir” para uma solução negociada do reconhecimento em um acordo “politicamente viável” entre o presidente palestino Mahmoud Abbas e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. “Nenhuma solução pode ser encontrada se uma das partes, de forma implícita ou explícita, quer a eliminação da outra parte”, afirmou.
Xadrez regional
Para Alberto Pfeifer, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), a divisão expõe o xadrez político da América Latina. “A Colômbia e o México, por exemplo, têm relações mais estreitas com os Estados Unido”, diz.
Entre os aliados aos Estados Unidos, estão México e Colômbia. Junto com Brasil estão Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai e Uruguai que formalizaram o reconhecimento à Palestina em 2010. Em seu discurso, Dilma ressaltou que o Brasil “já reconhece” a Palestina como Estado com as fronteiras antes da guerra árabe-israelense de 1967. Desenho que inclui Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza — territórios ocupados por Israel após a Guerra dos Seis Dias naquele ano.
O Brasil reconhece a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) como representante político desde 1975. Em 1993, o Itamaraty abriu a Delegação Especial Palestina, unidade elevada a embaixada em 1998. “Acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina representada a pleno título”, defendeu Dilma, argumentando que somente o reconhecimento do país árabe garante “umapaz duradoura no Oriente Médio”. “Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política regional”.
A divisão entre os latinoamericanos pode frustrar o plano de Abbas de ver seu Estado integrante da ONU. A Palestina precisa de 9 entre 15 votos do Conselho de Segurança. A Colômbia já disse que irá se abster de votar e os EUA irão vetar eventual sucesso.
*Reportagem publicada no jornal Brasil Econômico, em 22 de setembro de 2011.
Talvez o cineasta usaria hoje as suas ideias e sua câmera para contestar o nosso estabelecimento como consumidores antes de sermos cidadãos
Há exatos 30 anos, em 22 de agosto de 1981, morria o cineasta baiano Glauber Rocha. Perdíamos, assim, o cara que propôs o cinema como mecanismo para desafiar o status quo da autoexibição do latino-americano e a sua fome sob o ponto de vista colonizador europeu. “Enquanto a América Latina lamenta suas misérias gerais, o interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria, não como sintoma trágico, mas apenas como dado formal em seu campo de interesse. Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino”, provou no ensaio Eztetyka da fome 65, escrito por ele para os debates de retrospectiva do cinema latino-americano realizado em Gênova (Itália), em 1965.
O que Glauber contestava era a construção de uma estética da miséria com base no senso de “primitivismo” com que o europeu encarava a realidade socioeconômica da América Latina. Realidade cujo resultado reflete a faceta do processo que desde o descobrimento colocava o subcontinente latino como área para exploração econômica. “Até hoje, somente mentiras elaboradas da verdade (os exotismos formais que vulgarizam problemas sociais) conseguiram se comunicar em termos quantitativos, provocando uma série de equívocos que não terminam nos limites da Arte mas contaminam o terreno geral do político”, avaliava Glauber. “Para o observador europeu, os processos de criação artística do mundo subsesenvolvido só o interessam na medida em que satisfazem sua nostalgia do primitivismo, e este primitivismo se apresenta híbrido, disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado, mal compreendidas porque impostas pelo condicionamento colonialista”, afirmou.
“Para compreender a fome, dentro e fora da América Latina, seria necessário violentar a percepção, os sentidos e o pensamento” – Glauber Rocha
É a partir daí que o diretor de Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe propôs o cinema enquanto linguagem e espaço para a revolução, colocando em imagens o realismo que a literatura brasileira vinha exercitando como proposta estética desde os anos 1930. Talvez a inspiração de Glauber tenha sido Rosa de Luxemburgo e sua “teoria do terceiro homem”, na qual defende a ideia de que a fome do capital, a cada crise, o leva e extrair a riqueza de zona ainda primitiva economicamente. Não à toa, observou que “o problema internacional da América Latina é ainda um caso de mudança de colonizadores, sendo que uma libertação possível estará ainda por muito tempo em função de uma nova dependência”.
Mais adiante, em sua Eztetyka da fome 65, Glauber afirmava que “para compreender a fome, dentro e fora da América Latina, seria necessário violentar a percepção, os sentidos e o pensamento”. Foi assim que ele sugeriu e exerceu o cinema como mecanismo para conscientizar o espectador. Mas mais do que discorrer sobre o papel da linguagem enquanto exercício da independência contra o “raquitismo filosófico” a que a percepção europeia estava reduzida na compreensão da fome latino-americana como estágio primitivo de desenvolvimento, o cineasta sugeriu as obras do Cinema Novo como um fim que se tornaria um meio de incentivar a virada de mesa. “Não é um filme, mas um conjunto de filmes (o Cinema Novo) em evolução que dará, por fim, ao público, a consciência de sua própria existência”, sugeria.
Glauber Rocha morreu. A América Latina superou as ditaduras. O capitalismo, aparentemente, venceu a batalha contra o comunismo. E os latino-americanos passaram a ser vistos como consumidores, uma vez que a lógica da opressão pela fome cedeu lugar para uma tese geral de fomento de mercados internos, superando o binômio exploração-exportação. Agora, em meio a proposta como de erradicação da miséria no Brasil, talvez se Glauber estivesse vivo a sua proposta de revolução pela conscientização coletiva teria exatamente neste consumismo o seu alvo.
Talvez hoje o cineasta usasse suas ideias e sua câmera para contestar a nosso estabelecimento como consumidores antes de sermos cidadãos.
Talvez Glauber, que amanhã recebe homenagem no Senado, idealizaria o cinema como espaço para contestar o nosso avanço comercial sem que nos importemos com a defesa democrática de canais que nos deem a garantia de ver a fome física superada por práticas coletivas de respeito.
Talvez, e isso sempre será especulação, Glauber Rocha seria contrário a aceitarmos passivamente que o mercado nos abrace como seres que buscam juntos a satisfação individual do consumo vendida como ideia de prazer.
Sobre a ilha abaixo do mar
Voltei da Espanha em março com o último livro de Isabel Allende na bagagem. Comprei em Madrid um exemplar de La isla bajo el mar, que saiu por aqui com um título aportuguesado com alguma confusão fonética pela editora Bertrand Brasil na hora de convertê-lo da língua de Cervantes para a de Camões. A editora traduziu “bajo” como “sob” (“A ilha sob o mar”), o que não está errado gramaticalmente, mas que retira a sonoridade espanhola do original (“A ilha abaixo do mar”).
Li o primeiro capítulo ainda no aeroporto para me certificar de que o portunhol daria para o que mais tarde descobriria ser um fantástico manifesto pela liberdade, contra a opressão racial e pela emancipação feminina (mas sem o feminismo politizado; antes, sensível e poético).
Em La isla, a escritora chilena conta a história de Zerité: escrava comprada ainda menina para compor os bens do francês Valmorain na colônia Haiti. Transformada em doméstica, a menina Teté assume o comando da casa do colonizador nas proximidades de Le Cap (então capital haitiana). É a partir da plantação de cana-de-açúcar de Valmorain que Teté mostra ao leitor sua visão de mundo, pautada inicialmente pela capitulação ao senso de subserviência e opressão representado pelo absurdo social próprio da escravidão.
A maior parte do texto é narrada em terceira pessoa por Isabel Allende. É o narrador onisciente quem avança do recorte individual de Teté para um contar amplo da vida sob a escravidão, enquadrado como um defeito moral da indireça. A escritora, contudo, opta por deixar nas mãos de Teté a tarefa de falar ao leitor etapas-chave da própria história. Para isso, recorre a cartas intituladas apenas como “Zerité”.
O recurso é interessante, porque o corte no fluxo narrativo para colocar o texto em primeira pessoa torna Teté a responsável por “exibir” sua vida com a simplicidade natural de uma pessoa privada da liberdade desde a tenra idade. Considere-se aí a escravidão, desafiada por uma mulher que resolve relatar com palavras próprias aquilo que, em tese, deveria ficar escondido. O escravo não é dono da própria história. Afinal, é propriedade de outro e isso exige suprimir qualquer interpretação de seu entorno.
O proprietário, por sua vez, é um “outro” superior que não se importa em zelar pela própria “propriedade”. E aí reside a genialidade contestadora de La isla: a liberdade econômica ensaiada no nascente capitalismo é colocada em xeque no momento em que o escravo é visto como um bem do qual se pode dispor matando de fome ou de violência, por ser ele substituível. “Había medio millón de esclavos en Haiti, y era más barato explotarlos a muerte durante cuatro o cinco años que cuidarlos. Cada año entraban en la isla entre 20.000 y 30.000 esclavos nuevos, carne fresca”, diz o narrador.
A troca de estilo narrativo é a forma encontrada pela escritora para gerar “empatia” do leitor com a personagem. Não há como não gostar da coragem e da simplicidade de Teté. A impressão que sem ao final do livro é que conhecemos alguma Zerité real. “De todos los personajes que he creado, el de Zarité es para mí el que más tengo la sensación de que existió. La veo entera. Es alta, delgada, fuerte, de cuello y manos elegantes, con los pómulos altos, los ojos medio dormidos. Podría decir hasta cómo huele, la siento adentro”, disse a escritora o lançamento do livro, em 2009.
O recurso, porém, não é apenas traço de estilismo. A fala de Teté evolui junto com a vida da menina/mulher, que da violência sexual na infância avança para a descoberta do amor como primeiro traço de protesto pela própria liberdade. Com frases curtas, sempre ao final de frases singulares para entender partes da trama, Zerité evolui de um “assim me contaram” impessoal para um “assim foi” tocante.
A mudança consolida a transposição da mulher que no decorrer da história obtém sua carta de alforria. Nasce assim Zerité Sedella aos 30 anos. Uma mulher cuja alegria maior é dançar. “La música es un viento que se lleva los años, los recuerdos y el temor, ese animal agazapado que tengo adentro. Con los tambores desaparece la Zarité de todos los días y vuelvo a ser la niña que danzaba cuando apenas sabía caminar”, relata a personagem em suas memórias.
A independência conquistada pela escrava não é pouco em um século XIX no qual o debate sobre a “necessidade” da amputação racial representada pela escravidão e a segregação de gênero contra a mulher são pautas que acendem uma discussão violenta. O jovem Maurice, filho de Valmorain, incorpora o ideal abolicionista. Isabel Allende é provocadora. Ela vai buscar no seio da aristocracia branca um defensor da igualdade racial.
O livro também ganha corpo com o desenlace da revolução negra no Haiti, a migração dos colonizadores franceses para Cuba e Luisiana. Tudo permeado pelo infante Napoleão Bonaparte e as tentativas frustradas de seu império para reaver a colônia perdida nas Antilhas.
O resto a gente sabe como termina: Haiti riscado do mapa capitalista por longos séculos, golpes militares, ditaduras, ocupação pela ONU e um terremoto responsável por mais miséria nessa ilha que pena um bocado para ficar acima do nível do mar.
P.S.: O jornal espanhol El País disponibiliza o primeiro capítulo de La isla bajo el.

