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O Brasil por trás de Cuba

31/01/2012

Dilma frustra ao desconversar sobre direitos humanos, mantendo o Planalto como financiador da infraestrutura e da agricultura cubana

Dilma Rousseff e o presidente cubano, Raúl Castro.

Há quase dois anos, mais exatamente em fevereiro de 2010, o ex-presidente Lula chegava a Cuba para uma visita e o ativista Orlando Zapata Tamayo morria após três meses de prisão e greve de fome. Na ocasião, Lula afirmou que não foi procurado pelos ativistas para interceder por Tamayo, enquanto o assessor internacional do presidente, Marco Aurélio Garcia, saía com uma pérola: “Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro.”

Hoje, apenas 12 dias após a morte de Wilmar Villar Mendoza, ao final de 56 dias em protesto de fome contra a ditadura cubana, a  presidente Dilma Rousseff (vitima de uma ditadura) frustou a todos que esperavam dela uma postura mais forte sobre o desrespeito aos direitos humanos na ilha caribenha. O argumento de Dilma foi igual ao de Marco Aurélio Garcia em 2010, mas com uma peça de oratória mais incrementada.

“Não é possível fazer da política de direitos humanos uma arma de combate político-ideológico. O mundo precisa se convencer de que é algo que todos os países do mundo têm de se responsabilizar, inclusive o nosso”, declarou Dilma – confundindo, assim, protesto em prol da liberdade (em Cuba punido com prisão) com digressões isoladas como a violência policial no Brasil (injustificável sempre, mas não prescrita na constituição).

Alguns (como eu) esperavam que Dilma estivesse disposta a adotar um postura semelhante à assumida em relação ao belicoso Irã, com o qual rompeu o excesso de aproximação iniciado por Lula.

Esperava-se até que Dilma defendesse a vinda da blogueira Yoani Sanchez ao Brasil, o que agora é o de menos diante da negativa em criticar a ditadura cubana dias após a morte de Mendoza.

Irmão financeiro
Mas a frustração, pode-se dizer, também era esperada. Contraditório? Veja: o BNDES acaba de liberar US$ 682 milhões (R$ 1,2 bilhão) para a revitalização do Porto de Mariel, a 40 km de Havana. E onde há acordos econômicos, dificilmente ocorre discordância diplomática (Dilma está confirmando isso).

O aporte do BNDES é parte de um conjunto de medidas do Planalto para financiar a falida máquina econômica cubana, tendo por trás o argumento de incentivar a internacionalização de empresas brasileiras. Sem considerar, para isso, o respeito aos direitos humanos – vide a ligação com a ditatorial Angola, fortalecida nos últimos anos por Lula. É uma internacionalização visivelmente “ideológica”, para usar uma palavra ao gosto da presidente, uma vez que é pautada pela ideia de ter um brasileiro Estado-fomentador-econômico não mais interno e, sim, regional.

Vale lembrar que em novembro de 2011 o ministro do Desenvolvimento Agrário de Cuba, Afonso Florence, pediu ao Brasil US$ 200 milhões em crédito para a importação de máquinas agrícolas, que seriam usados para Cuba dobrar sua produção de arroz, feijão e reduzir a dependência da importação de grãos. Estima-se que a ilha importe até US$ 2 bilhões em alimentos por ano.

O BNDES usou de um artifício sutil para atender ao pleito de Havana, criando no início deste mês a linha BNDES Exim Automático. Por meio das agências do Banco do Brasil na América Latina ou diretamente pelo BNDES, inéditos US$ 200 milhões estão disponíveis para a importação de máquinas e equipamentos brasileiros, inicialmente, por Argentina, Chile e Paraguai.

A linha deve ser estendida a países nos quais órgão brasileiros de fomento, como a Apex-Brasil, estão instalados, usando como regra a aprovação de crédito a empresas por órgãos regionais como a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). Cuba é membro da Aladi desde 1999.

A agricultúra é o alvo do pacote de US$ 523 em linhas de financiamento com o qual Dilma desembarcou em Havana. A produção cubana de alimentos terá US$ 350 milhões do total por meio do Programa de Financiamento à Exportação (ProEx).

O governo brasileiro mantém outra linha de US$ 200 milhões no programa Mais Alimentos, voltado para a compra de máquinas e equipamentos, operado pela através da Câmara de Comércio Exterior (Camex). Com isso, Cuba soma US$ 1,3 bilhão em recursos brasileiros.

Construtora de açúcar
Junto com o crédito, a construtora Odebrecht (responsável pelas obras no Porto de Mariel), pretende investir na produção cubana de açúcar por meio de sua subsidiária local Companhia de Obras em Infraestrutura (COI).

O valor do aporte não é revelado pela empresa nem onde o dinheiro saíra, mas deve marcar um passo importante para a retomada da produção cubana do produto. A ilha do Caribe produz atualmente cerca de 1,2 milhão de toneladas de açúcar por ano, contra 8 milhões nos anos 1970.

O governo Raúl Castro promete ceder 1,6 milhão de hectares à iniciativa privadas investir no agronegócio cubano. Não à toa, a Odebrecht está se associando à estatal Grupo de Administração Empresarial do Açúcar (Azcuba) para administrar a usina 5 de Septiembre, na província de Cienfuegos.

As ações do BNDES e da Odebrecht, aliadas ao discurso de ‘desrespeito universal aos direitos humanos’ de Dilma, mostram um pouco do Brasil por trás de Cuba. Um Brasil que a cada ano coloca milhões para ajudar Cuba na sua meta quixotesca de virar uma China latino-americana. Por ora, a semelhança só existe no nome dos partidos comunistas chinês e cubano, os PCC.

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